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A mágica dos reprises

Uma partida de futebol causa um turbilhão de emoções enquanto está acontecendo, sendo a principal delas a preocupação com o resultado final. É super fácil ficar pilhado e esquecer que lógica e razão também fazem parte do jogo. Mas a real é que se a bola ainda está rolando, nada disso importa na nossa cabeça. Defender o treinador que fez uma substituição estranha (mesmo que pareça uma boa ideia) soa como uma traição à ala corneta e atrai olhares atravessados e julgamentos silenciosos.

Mas como a televisão fechada precisa preencher a grade e provavelmente não tem programas suficientes para ir ao ar, recebemos a dádiva de diversos reprises. Que tanto servem para quem faltou ao culto futebolístico – por qualquer outro compromisso menos importante, porém inevitável – quanto para quem quer entender o que foi que aconteceu em campo, já sabendo o placar final.

Muito mais fácil entender como aquela jogada de gol começou lá no campo de defesa, quantas vezes o volante tinha sido pressionado antes de entregar a paçoca ou por que colocar mais um ponta quando já tinham outros dois em campo terminou de estragar o time. São coisas que às vezes sentimos durante o jogo ao vivo, mas são complicadas de explicar por causa da emoção. Você já assiste mais jogos de futebol do que sua família gostaria e como vários deles podem acontecer no mesmo horário, normal ter que ver uns reprises porque uma partida já é complexa demais, quanto mais duas ao mesmo tempo.

Com resultado e minutagem dos gols nas mãos, manter o cérebro concentrado nas movimentações e construções é muito mais fácil. Não é regra, mas os minutos antes do gol ou de chegadas claras ao ataque mostram coisas interessantes e podem explicar o que provocou o tento. Seja uma pressão enorme que foi encontrando espaços depois de algumas tentativas de dribles e tabelas, ou uma defesa que se adiantou muito para diminuir o espaço adversário e acabou exposta num contra-ataque no mano-a-mano, ou ainda quantas tentativas diferentes de montagem desse contra-ataque foram feitas até que ele foi encaixado. Essa calma que o reprise provoca facilita muito a compreensão do jogo. Claro que não vale a pena cometer o pecado deixar de assistir ao vivo pra ver com calma no reprise, o ideal é ver ao vivo e entender melhor o que aconteceu na repetição.

Lembro-me de um mata-mata recente da Champions League em que eu não tinha simpatia por nenhum dos dois times. Estava feliz porque um deles fatalmente sairia naquela fase, então consegui assistir friamente, sem muito sentimento e enxergar como as equipes se comportavam quando atacavam e defendiam. Depois de uma expulsão meio injusta, a dinâmica mudou um pouco e quem perdeu um atleta ficou mais tempo defendendo do que estava antes. Um dos atacantes recuava para completar a linha de 4 jogadores no meio campo quando se defendia e então corria de novo à frente quando seu time recuperava a bola, meio que fazendo o trabalho de dois jogadores. Foi a maneira de reestruturar a marcação sem que nenhuma substituição fosse feita. A alegria durou pouco porque logo depois aconteceu um gol que mudou o time classificado e eu percebi que mesmo com dois times detestáveis, um deles era mais detestável que o outro, então esqueci as movimentações e voltei a olhar só para a bola e para o placar. Pragmático demais, talvez.

Também, claro, é um recurso para conhecermos o futebol do passado e craques que jogaram enquanto ainda não tínhamos nascido e de repente reparar que as ideias de hoje não são tão diferentes assim do futebol que nossos pais viram, mas talvez a velocidade hoje faça uma bela diferença.

Se talvez você costumava rever partidas só para lembrar de vitórias em clássicos ou partidas de títulos conquistados, espero que tenha encontrado novos motivos para ficar ainda mais tempo no sofá conferindo jogos que já acabaram, apreciando uma completa incompreensão dos seres humanos que dividem a casa contigo, mas com a desculpa de que está fazendo isso para aprender algo. Nessa hora, três ou quatro termos como recomposição defensiva, amplitude, enganche e volante box-to-box podem ser usados como justificativa, mesmo que o significado deles ainda não seja claro, mas eles ficarão impressionados (ou  menos desconfiados) já que a maioria dos comentaristas de futebol faz um trabalho bem fraco de interpretar o jogo. Mas pensando bem, é essa brecha que este blog pretende cobrir.

Vamos aprender juntos vendo reprises



Você também tem costume de assistir jogos que já aconteceram? Conte nos comentários sobre algo que conseguiu enxergar depois de ver um jogo ou um lance olhando os movimentos com mais calma, sem emoção.

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